No dia seguinte, D.Jaíma seguia com a pequena Maát para sua cidade natal. Três longos dias se passariam até que elas alcançassem o destino.
Enquanto isso, a equipe Dellus, reunia-se no mosteiro pois sabiam da partida de Lúcius e de Maát.
Os Destinos diferentes que traçavam deveria ser revertido,pois somente estando juntos é que poderiam somar forças para um futuro de luz.
Ao chegar na cidade esperada,D.Jaíma e a pequena netinha encontraram a casinha suja,com cheiro forte pelo tempo em que ficou fechada, embora a decoração estava muito bonita.
Reviu velhas amigas, limpou toda a casinha e tratou de arrumar o quarto da netinha.
Maát era um menina tranqüila, exalava beleza e boas energias. Foi crescendo brincando com as crianças da cidadezinha. Aos 5 anos de idade, já era capaz de utilizar palavras de sabedoria em conversas com sua avó.
Aconselhava com responsabilidade, abraçava com imenso sentimento de carinho, olhava com meiguice, ouvia com atenção, e sempre praticava atos de boa conduta.
As outras crianças já não mais acompanhavam a inteligência e os princípios da pequena Maát, que foi então ficando mais em casa. Sua avó, por muitas vezes encontrava-se conversando assuntos de filosofia ou extremamente sérios para uma menina daquela idade. Se surpreendia com as palavras e atitudes da netinha. Observava que ela sempre estava mexendo com plantas, arrumava o tear quando quebrava, sempre estava interagindo com alguma coisa.
D.Jaíma sabia que a habilidade com as plantas herdara de seu pai, mas as outras, era algo Divino!
Como de costume, D.Jaíma levantava bem cedo,colocava água nos jarros para apreciar o banho dos pássaros, e todo início de mês, ao abrir a porta, encontrava alimentos embrulhados em leve tecido.Sabia que Lúcius havia passado naquela noite...
Certo dia enquanto D.Jaíma preparava uma refeição, começou a ouvir palavras belíssimas.Alguém falava sobre Jesus, amor ao próximo, natureza, Deus...
As palavras eram tão profundas, tão belíssimas, que D.Jaíma resolveu sair e apreciar ainda mais, tamanha lição de sabedoria.Mas para sua surpresa, numa pedra gigante bem pertinho de sua casa, a pequena Maát, que agora já tinha 9 anos, palestrava para um amontoado de pessoas, que ia aumentando cada vez mais.
Ela não acreditava no que seus olhos mostravam-lhe. Da onde ela tirava tanta sabedoria?Com conseguia falar com tanta segurança?
E em meio as pessoas que se juntavam, D.Jaíma apreciava surpreendida as lições de vida que sua netinha narrava no alto de uma pedra.
-Enquanto não amarmos uns aos outros,seremos sofredores das pragas humanas! Doenças,mazelas,percas marcantes!Quando iremos despertar para a verdadeira vida?Já é chegado o tempo de exercitar nossa’alma para os valores de paz,amor e tolerância!- dizia Maát com bastante presença.
D.Jaíma percebia que as pessoas estavam com a atenção preza na figura de Maát,ela transmitia palavras com tanto sentimento, que parecia mesmo hipnotizar as pessoas.
Ao perceber a presença de sua avó materna, Maát logo tratou de descer da pedra,e correu para os braços dela.
-Vovó,vovó, que saudades!!
-Ora querida, não faz nem algumas horas que a gente se viu!
-Ah,mas eu já estava ansiosa para revê-la.- falava Maát com muita alegria.
D.Jaíma pegou na mão da netinha e seguiram para casa.
Lúcius até então, nunca havia olhado sua filha de perto,sempre passava nas madrugadas para deixar alimentos. Jamais tocou nela, ou sequer deu-lhe algum abraço. D.Jaíma, não sabia o que se passava no coração de Lúcius, nem imaginava porque Maát nunca lhe perguntara sobre seu pai.
No seu aniversário de 10 anos, D.Jaíma achou que era hora de falar sobre Lúcius.E assim iniciou uma conversa mais séria com sua neta.
- Então minha querida, feliz por mais um aniversário?
-Muito vovó.Adoro fazer aniversário!
-Preciso falar uma coisa séria com você,meu amor.É sobre seu pai,Lúcius.Você deve pensar como ele é, onde ele está, entre outras coisas, mas eu quero te dizer ...
-Ah, vovó, não precisa me dizer nada!!Já sei de tudo!! Papai virá um dia, eu tenho certeza, ele me ama, porque eu sinto.E neste dia,ele já terá compreendido a sabedoria de Deus!
-Quem te falou isso?
-Ora vovó, ninguém, eu sinto isso, aqui dentro.- disse a pequena Maát, mostrando o coração.
-Então,confie no seu coração sempre,e assim será feliz.-disse D.Jaíma,abraçando-a fortemente.
Maát sabia muito mais do que dizia para sua avó, sua sensibilidade era incrível. Desde pequena, conversava com sua mãezinha, que já se encontrava nas esferas espirituais, e já sabia que glorioso futuro a esperava, em meio a caminhos difíceis e dolorosos.
Naquele entardecer belíssimo que a natureza oferecia, era chegado o momento de completar mais um ano da partida de Miriam. A pequenina junto de sua avó, ajoelharam-se defronte a janela,como faziam há 10 anos. Fizeram orações com tanto sentimento, que pareciam não estar mais na casa, mas sim , no céu!
Miriam sentia a pureza das vibrações emitidas por elas, e estando ali ao lado das duas, agradecia a Deus por tantos benefícios recebidos.
Mas Maát,naquele dia, orou também pelo seu pai, com tanta intensidade, que Lúcius sentiu a prece,mesmo estando longe de sua filha. A última lembrança da imagem dela, veio a sua mente com força e presença.Algo muito forte fez com que seu coração batesse descompassadamente.
A Missão Sírius finalmente havia conseguido alcançar seu primeiro objetivo: unir Lúcius e Maát em pensamento.
Uma estranha ligação entre pai e filha havia sido despertada...
O vento primaveril tocava a face de D.Jaíma,naquela tarde do dia 03 de abril de 1754. No lado oeste ao sopé da Montanha da Vida, ela orava, com alguns amigos e familiares, pela partida de sua querida filha Miriam.
Ao sair do túmulo de Miriam, D.Jaíma seguiu para o mosteiro, na esperança de minimizar a ferida que a vida havia lhe oferecido.
Ao passar pela gigantesca porta frontal do mosteiro, com a pequenina em seus braços, o monge Rodrigues pressentindo a presença de energias benevolentes adentrando o mosteiro, desceu rapidamente do andar superior para receber a pessoa que exalava tal energia.Ao chegar no térreo, avistou uma senhora discreta, com expressão cansada.
-Boa tarde senhora, seja bem vinda! Posso ajudá-la?
-Boa tarde senhor. –disse D.Jaíma, já prosseguindo -Hoje meu coração está despedaçado! Acabo de enterrar minha filha! Meu marido também se foi, mas sei que meu Eugênio está em algum lugar muito bom lá no céu, pois foi marido e pai magnífico!
-A morte é a vida em transformação. Certamente seu marido está em algum lugar de paz e luz, assim como sua filha.
-Oh, que palavras lindas,isso me conforta um pouco.Eu ainda não sei como agir perante tantas mudanças em minha vida!Mas, graças a Deus, tenho este “pequeno tesouro” para cultivar. – disse D.Jaíma mostrando a pequena em seus braços.
Neste instante, o monge Rodrigues percebeu que a energia que sentia, vinha do bebê que D.Jaíma trazia nos braços.Ele pôde ver que ela tinha grande padrão vibratório, e sabia que ali estava a filha de Lúcius.
-Como se chama este pequeno “tesouro”?-perguntou o monge dirigindo o olhar pra o bebê.
-Ainda não sei.Esta menina mal chegou e a vida dela já é tão difícil.-disse D.Jaíma
-Porque não fica alguns dias no mosteiro, participando das atividades e interagindo com outras pessoas?Ajudaremos com a criação da menina, e tenho certeza de que encontrará conforto e compreensão das dores que sente. – disse o monge Rodrigues carinhosamente.
-Não,senhor.Vim mesmo pedir que abençoe minha netinha, pois hoje mesmo devo partir. Retornarei a minha terra natal, onde eu e meu marido crescemos e tivemos nossa Miriam.Quero que minha neta cresça e seja educada do mesmo modo que sua mãe.-disse D.Jaíma baixando a cabeça.
-Então,pelo menos, deixe-me ajudá-la na escolha do nome desta bela criança! Afinal,ela tem direito a um nome - disse o monge,tocando em gesto de carinho, a face da criança.
-É uma boa idéia.Minha filha nunca disse nada sobre nome de filha ou filho, mas Lúcius sempre brincava com nomes para seu bebê.- disse D.Jaíma com sutil inclinação dos lábios com ares de sorrisos.
-Então, quais nomes que ele mencionava?-Perguntou o monge.
-Falava em Maát para menina, e ...
-É isto! Que belo nome! Bem parecido com “ele” mesmo.-disse o monge em tom festivo.
-Hora, tem razão, é um belo nome, mas você conheceu Lúcius?-Perguntou D.Jaíma,curiosa com o comentário do monge.
-Ah,minha filha,conheço pessoas que nem imagina.Maát representa justiça,ação correta.É bem parecido com Lúcius.Creio que é o nome perfeito!-Disse o monge, muito alegre.
-Então está escolhido, Maát ! Eis seu nome, minha pequena flor - disse D.Jaíma, erguendo a menina para o céu.
-Se assim deseja, vá em paz, e que Deus lhe acompanhe - disse o monge Rodrigues, que ao tocar na testa de Maát, para fazer o sinal da cruz em representação as bênçãos concedidas, sentiu tão grande poder, que teve visões de Sírius, dos jardins suspensos que ele adorava freqüentar, do sol que os alimentavam,dos pássaros que cantavam longas canções, etc.A energia passada pela pequena Maát, neste toque sutil, fez com que o monge Rodrigues estivesse lá parcialmente. Ao terminar o gesto, ele olhou profundamente para D.Jaíma e disse:
-Sempre estaremos aqui,caso necessite de ajuda.E este convite se estende a todos seus conhecidos e familiares.
-Obrigada.Vou seguindo para não tardar muito.
E assim,D.Jaíma seguiu para a casa de Lúcius, na intenção de iniciar a mudança para sua terra natal.
Ao chegar na casa, viu Lúcius terminando de arrumar pequena trouxa de roupas.
-Onde vai,meu filho?-perguntou D. Jaíma.
-Oh, minha sogra querida,tão dedicada a família, a casa e a vida! Não suporto a idéia de seguir sem minha Miriam. Vou caminhar por aí,sem rumo,sem destino.Pois não posso mais viver neste lugar!-disse Lúcius com as de mágoas profundas.
-Mas minha filha Miriam está em um lugar melhor. Agora, temos que seguir nossa vida, amar e educar Maát, e ir caminhando conforme Deus nos guia. – disse D.Jaíma com ar sereno.
-Maát? Era o meu nome predileto.....mas não posso ficar! Como vou amar alguém que levou de mim a mulher de toda vida? Esta menina não trouxe nada de bom. Deixo-a com a senhora, pois eu não posso amá-lá! Embora seja sangue de meu sangue,roubou de mim, a alma da alegria.-disse Lúcius em tom de desprezo.
- Meu filho, a vida vai te mostrar o quanto está errado.Este menina chegou para lhe trazer algo de que necessita muito.Mas só o passar dos dias é que vai descortinar a importância do amor sublime, do perdão, e da seqüência da vida. Não pode culpar sua filha da morte de Miriam.Ela não tem culpa do destino que se seguiu.-disse D.Jaíma,compassivamente.
-Desculpe senhora por decepcioná-la.Mas não posso olhar esta criança, pois vejo nela a traição Divida, tirando de minha vida uma pessoa,para receber outra.Se algum dia este sentimento enorme de raiva e vazio desaparecer, eu voltarei. Mas não a deixarei desamparada.Sempre irei aparecer para deixar alimento e ervas para vocês duas.Mas não me peça para amar esta menina!-disse Lúcius terminando a trouxa de roupas.
-Lúcius querido, creio que no mosteiro encontrará o que procuras.Amigos sinceros encontrará por lá.Fique algum tempo no mosteiro,tenho certeza que voltará a agir com o bom senso de sempre.-disse D.Jaíma
-Deus me magoou muito.Naquele lugar só tem pessoas que falam em Deus.E eu não quero ouvir nada sobre este assunto.Vou indo, já está tardando e quero pousar no vilarejo de Crespe ainda esta noite.-disse Lúcius abraçando D.Jaíma e olhando o bebê sonolento nos braços dela.
-Oh Lúcius, como está com idéias erradas sobre o mosteiro.Lá não se fala só de Deus, mas de tudo que é bom.-disse D.Jaíma enquanto Lúcius já seguia no pequeno cavalo carregado de tristezas e mágoas.